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segunda-feira, 11 de junho de 2012

Déficit de Atenção nos adultos.

 
O que é TDAH?
O Transtorno do Déficit de Atenção e/ou Hiperatividade (TDAH) é um transtorno neurobiológico, com causas genéticas, que começa na infância e normalmente acompanha o indivíduo em sua fase adulta. Este diagnóstico foi amplamente discutido nos últimos 10 anos, com várias pesquisas publicadas sobre o TDAH especialmente em crianças, entretanto sabe-se que os problemas continuam na vida adulta.
Quais os sintomas do TDAH nos adultos?
Os três principais sintomas do TDAH na vida adulta continuam sendo: impulsividade, hiperatividade e desatenção, mas em geral, se apresentam de forma diferente do que estamos acostumados a observar nas crianças.
Como é a hiperatividade no adulto?
O comportamento hiperativo é substituído por atitudes de fazer tudo como se estivesse com muita pressa. Eventualmente pode não conseguir deixar as mãos e pernas paradas, roer unhas, rabiscar os papéis, mexer a cadeira e ter dificuldades com o sono. O adulto hiperativo está sempre fazendo alguma coisa, muitas vezes indo e voltando até ficar fisicamente esgotado.
A hiperatividade é substituída pela inquietação mental e não mais somente física, como frequentemente observado nas crianças. São os adultos que fazem milhões de coisas ao mesmo tempo, não param de pensar um segundo, e além disso, são capazes de ter dezenas de atividades durante um mesmo dia.
Como a impulsividade se apresenta no adulto?
A impulsividade no adulto com TDAH pode, por exemplo, se apresentar como dificuldade de controlar emoções e reações imediatas. Este comportamento pode evoluir e se tornar problemático caso o adulto se envolva em jogos, compras e abuso de substâncias de forma descontrolada. Uma outra maneira de manifestação da impulsividade é a dificuldade em controlar os pensamentos, muitas vezes apresentando explosões verbais, ou seja, dizendo que a primeira coisa que vem à mente.
Como os problemas de atenção aparecem nos adultos?
Sabemos que a distração também afeta muitos aspectos da vida adulta. Os indivíduos podem ter problemas em manter a mente focada em uma tarefa específica, ou seja, podem ter dificuldade de se concentrar em uma conversa, mostrando-se facilmente entediados, quando não estão completamente entretidos. Os pequenos esquecimentos na vida diária, no trabalho e em casa, podem parecer resultado do excesso de tarefas, mas frequentemente são causados pela desatenção.
Adultos com TDAH tem regularmente dificuldade para organizar e planejar o futuro. Fazem tudo de última hora e acabam não conseguindo cumprir muitos dos compromissos e prazos. Esta dificuldade executiva pode ser identificada por alguns sintomas:
  • Ser desorganizado;
  • Perder coisas;
  • Depender de terceiros para manter a ordem;
  • Não conseguir acompanhar muitas coisas ao mesmo tempo;
  • Não conseguir finalizar tarefas e/ou projetos, precisando muitas vezes de um prazo rígido para poder finalizá-las.
Durante seu dia a dia, o adulto portador de TDAH pode ter dificuldade de se organizar e planejar as atividades diárias, ou mesmo saber colocar suas prioridades. Apresenta dificuldade de organizar e administrar seu tempo e na tomada de decisões, além de esquecimentos frequentes com relação a datas. O adulto normalmente não persiste em suas atividades, e muitas vezes não consegue finalizar suas tarefas, como por exemplo ler um livro até o final.
Como deve ser o Diagnóstico do TDAH no adulto?
Para se fazer o diagnóstico de TDAH em adultos é obrigatório demonstrar que o transtorno esteve presente desde criança. Isto pode ser difícil em algumas situações, porque o indivíduo pode não se lembrar de sua infância, mas em geral lembra de situações que denunciam os sintomas de hiperatividade e impulsividade. Pode ter sido muito “avoado”, com queixas frequentes de professores e pais.” Ao se fazer um diagnóstico, sugere-se características como:
  • Atividade Motora Constante
  • Incapacidade de manter o foco em conversas
  • Distração
  • Incapacidade de se concentrar na leitura
  • Dificuldade de foco no trabalho
  • Esquecimentos constantes
  • Labilidade afetiva
  • Incapacidade de completar tarefas
  • Temperamento estourado
  • Impulsividade
  • Baixa tolerância ao estresse
  • Dificuldade de organização
  • Intolerância ao tédio
  • Criatividade e inteligência com momentos brilhantes
  • Baixa tolerância à frustração e impaciência
  • Inquietude
  • Problemas para seguir regras e procedimentos
Como deve ser o tratamento de um TDAH adulto?
O tratamento em adultos portadores de TDAH é o mesmo que usado em crianças e /ou adolescentes, isto é, ele deve ser multi-modal, misturando a medicação com intervenções psicoterapêuticas.
A medicação pode ajudar a superar hábitos e comportamentos, além de muitas vezes ser usada para tratar as comorbidades que podem acompanhar um adulto com TDAH como: depressão, ansiedade, problemas com álcool ou drogas, etc.
A psicoterapia ajuda a pessoa a lidar com sentimentos como a raiva e a frustração, além de promover a melhora das habilidades sociais, bem como ajudar na resolução dos problemas decorrentes do TDAH.
Quais são os aspectos positivos de ter TDAH?
Apesar dos pontos difíceis, podemos apontar vários aspectos positivos no adulto com TDAH. Na verdade, são pessoas frequentemente muito rápidas e inteligentes. Na maioria das vezes, são incrivelmente criativas, extrovertidas e hábeis resolver tudo ao mesmo tempo. Em geral, adoram aventuras, e esportes radicais, pois sua impulsividade é alimentada de forma gratificante. Eles podem se tornar muito bem sucedidos quando encontram algo apaixonante para fazer. Estas são as pessoas que exalam energia, entretanto, quando não bem encaminhadas ou tratadas, suas vidas podem ser afetadas de forma dramática.
Problemas geralmente ocorrem quando eles não conseguem encontrar alguma coisa para segurar seu interesse, que por sua vez pode levar a muitos problemas como os acima mencionados, ou seja, abuso de substâncias, depressão ou incapacidade em encaixar suas vidas em uma estrutura tradicional.
De qualquer forma, o tratamento é sempre possível e o adulto com TDAH pode ter uma vida absolutamente normal se conseguir encaminhar com sucesso suas dificuldades e aproveitar seus recursos!
Juliana Stroh, Maria Alice Fontes

quinta-feira, 24 de maio de 2012

TDAH É UMA DOENÇA INVENTADA?


 Você certamente já leu ou ouviu em algum lugar que o TDAH “é uma doença inventada pelos laboratórios farmacêuticos” ou que é uma “medicalização” de comportamentos de indivíduos que são simplesmente diferentes ...dos demais. Então vamos aos fatos:

1) O que hoje chamamos de TDAH é descrito por médicos desde o século XVIII (Alexander Crichton, em 1798), muito antes de existir qualquer tratamento medicamentoso. Não existia sequer aspirina... No inicio do século XX, aparece um artigo científico publicado numa das mais respeitadas revistas médicas até hoje, The Lancet, escrita por George Still (1902). A descrição de Still é quase idêntica a dos modernos manuais de diagnóstico, como o DSM-IV da Associação Americana de Psiquiatria. Se fosse uma doença “inventada” ou “mera conseqüência da vida moderna”, você acha que seria possível atravessar quase dois séculos com os mesmos sintomas?

2) Os sintomas que compõem o TDAH são observados em diferentes culturas: no Brasil, nos EUA, na Índia, na China, na Nova Zelândia, no Canadá, em Israel, na Inglaterra, na África do Sul, no Irã... Já chega? Pois se fosse meramente um comportamento secundário ao modo como as crianças são educadas, ou ao seu meio sociocultural, como é possível que a descrição seja praticamente a mesma nestes locais tão diferentes?

3) Se o TDAH fosse meramente “um jeito diferente de ser” e não um transtorno mental, por que os portadores, segundo os dados de pesquisas científicas, têm maior taxa de abandono escolar, reprovação, desemprego, divórcio e acidentes automobilísticos? Por que eles têm maior incidência de depressão, ansiedade e dependência de drogas?

4) Se o TDAH fosse “uma invenção da indústria farmacêutica”, você esperaria que a Organização Mundial de Saúde – órgão internacional máximo nas questões relativas à saúde pública sem qualquer vinculação com a indústria farmacêutica – listaria o transtorno como parte dos diagnósticos da Classificação Internacional das Doenças não só na sua última versão (CID-10) como nas anteriores (CID-8 e CID-9)? Pois é, ele está lá no capítulo dos transtornos mentais – vide o site http://www.datasus.gov.br/cid10/v2008/cid10.htm

5) Se o TDAH fosse secundário ao modo como os pais educam seus filhos, por que motivo as famílias biológicas de crianças com TDAH que foram adotadas têm prevalências (taxas) de TDAH bem maiores do que aquelas encontradas nas suas famílias adotivas? A única explicação possível: é um transtorno com forte participação genética.

6) Quantos artigos científicos você acha que já foram publicados demonstrando alterações no funcionamento cerebral de portadores de TDAH? Mais de 200 (você leu certo). Vale também lembrar que os achados mais recentes e contundentes são oriundos de centros de pesquisa como o National Institute of Mental Health dos EUA impossibilitados de qualquer contato com a indústria farmacêutica. O fato de não termos uma alteração cerebral que seja “marca registrada” do TDAH não invalida nem a sua base neurobiológica, muito menos a sua existência. Se fosse assim, não existiria a Esquizofrenia, o Autismo, a Depressão, o Transtorno de Humor Bipolar entre outros, já que nenhum desses tem uma alteração que seja “marca registrada” da doença.

E como você pode acreditar em todas estas informações descritas acima?

Muito fácil: estão em artigos científicos publicados em revistas sérias que exigem rigor científico e passam pelo crivo de vários profissionais antes de serem publicados. E todos estes artigos são públicos. (por exemplo: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed)

E quanto aos conflitos de interesses de quem escreve artigos? Eles existem frequentemente e são de dois tipos. O primeiro deles é o chamado conflito de interesses financeiro, onde o autor de um artigo científico (ou um palestrante) recebe verba de alguma instituição em empresa farmacêutica para suas pesquisas ou ainda como consultor. Nestes casos é exigido que ele informe claramente aos leitores de seu artigo (ou aos participantes de uma palestra) os seus potenciais conflitos para que todos possam ler o artigo (ou ouvir sua palestra) sabendo dos mesmos, antecipadamente. Isto é obrigatório nas revistas científicas e em quase todas as associações médicas; no Brasil isto é exigência da ANVISA. Este procedimento garante que nenhum resultado de pesquisa seja apresentado sem que todos possam considerar a possibilidade destes conflitos financeiros; ou seja: exige que o pesquisador apresente dados com a devida transparência.

O segundo tipo de conflito de interesses é o não-financeiro. Este é também extremamente comum e, infelizmente, a sua informação aos leitores ou ouvintes ainda não é exigida por lei. São exemplos: pertencer a uma determinada escola de psicoterapia ou religião que pregam o tratamento através de suas práticas e não através de medicamentos, cargos políticos ou administrativos (que permitem economizar no tratamento de uma doença caso se considere que ela “não existe” ou que “não é necessário usar medicamentos”, etc.)

Quando você ouve alguém falar que “TDAH é uma doença inventada”, por mais eloqüente que seja o autor desta opinião sem qualquer base científica, ou mesmo a sua titulação (a incapacidade e leviandade sempre foram democráticas: também acometem médicos, psicólogos, etc.),pesquise sobre a veracidade (e a origem) do que está sendo dito.

Sempre existiram indivíduos com pouco espírito crítico embora bem intencionados e espertos mal intencionados na história da medicina. Apenas para enfatizar: até bem pouco tempo atrás havia quem bradasse aos quatro cantos que a AIDS não era causada pelo HIV. Outra: que as vacinas para sarampo causavam autismo nas crianças. Ou ainda pior, que condenavam as mães pelo Autismo de seus filhos: chamavam-nas de “mães geladeiras” numa alusão de que era a sua frieza nas relações inicias com seus filhos que criava o autismo na criança!

Os resultados?

Aumento absurdo das mortes por AIDS e de crianças com seqüelas neurológicas irreversíveis por conta de sarampo, uma doença facilmente prevenida. E uma enormidade de mães levianamente culpadas que se viam ainda mais fragilizadas para acolher um(a) filho(a) com uma condição delicada como o autismo. Mediante ao texto acima você tem recursos para acessar fontes realmente seguras e científicas sobre o TDAH. Portanto, dê um basta no discurso vazio! Siga o conselho do poeta Dickens: “não aceite nada pela aparência, só pela evidência”.

No nosso caso, a evidência científica é implacável: o TDAH é um dos transtornos mais bem estudados da medicina e com mais evidências científicas que a maioria dos demais transtornos mentais.

O texto acima foi redigido por: Paulo Mattos – Presidente do Conselho Científico da ABDA– Psiquiatra
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